A Dança dos Ossos

“A Dança dos Ossos” é o título do poema que criei a partir dos estudos de movimento em grupo conduzidos por Luciana Gandolfo. Esse trabalho, com a duração de quinze minutos, foi apresentado na Sala Crisantempo em 1 de novembro de 2025. A declamação do poema ocorreu no último ato da apresentação.

A Dança dos Ossos


Caminho com o tálus,
flutuo com o atlas.

Num rodopio, Pina.
Danço.

E na metamorfose do encontro,
enlaço o céu à terra.

Travessias

Regina Devescovi

No lugar de

No início não sabia o que era, quem era, a que viera.  Era sem mente.

Quando cresci me descobri – como só mente.

Vivi múltiplas experiências. Quando fui Sol, iluminei a tudo e a todos. Quando fui Lua, mostrei o lado escuro da luz. Quando fui Estrela, plantei uma sementinha em seu jardim. Quando fui Pedra, você descansou sobre mim. Quando fui Folha você me consumiu. Quando fui Semen fertilizei uma vida.

Hoje sou pequena, contida, retraída. Estou voltada para dentro de mim mesma. Sou vulnerável, assustada, penetrante. Tenho toda a potência dentro de mim.

Tenho potência, mas não sei que a tenho. Estou vulnerável, pois não sabedora de minha potência. Espero. Deixo estar; deixo acontecer.

Se me sinto como um gérmen, enrolo para dentro. Mas quando respiro, expando para fora.

Já fui feijão, já fui lentilha, já fui papaia.

Já fui vagem, já fui rosa, já fui orquídea.

Já fui pastagem.

Adoro rolar, sentir a textura das superfícies; sentir a água, o frescor da água. Alimentar-me de vento.

Adoro rolar.

Adoro rolar, pular e brincar. Adoro explorar…até encontrar o que me faz melhor.

Odeio ser pisoteada, ficar privada de água, sentir fome de vento, ser engolida por feras e monstros.

Amo aventuras: ser levada por uma enxurrada e ser transportada ao sabor do vento.

Amo ser aterrada e ser cuidada. Semeadura.

Amo ser semeada e cultivada.

Gosto de me exibir. Gosto de minhas cores, sabores, cheiros e humores.

Amo minha musicalidade.

Pois quando desponto…Uau! Epifania.

Revelação, iluminação, ação, criação.

Mas se ontem fui planta, hoje sou sêmen.

Amanhã serei embrião. E no futuro serei você.

Da Série: Poemas Autorais

Fonte da imagem: https://pin.it/5zRm7WyJk , Pinterest

Em mãos *

1

Dissolvo as brumas em mãos delicadas.

Entretenho as sombras em mãos sensíveis.

Penumbra:   meia luz ilumina o invisível.

2

Maos em vão, quem são?

Mãos-coração?

Mãos presentes, pensantes, dançantes,

Criação.

3

Mãos criadoras.

Tocam, sentem, cantam.

Alegram-se, entristecem-se.

Esclarecem.

4

Mãos que se insinuam: ondulantes, rodopiantes, sinuosas.

Mãos que surpreendem e se surpreendem.

Mãos de Luz: sensíveis.  

Mãos que tocam.

Criação.

5

A mão desvelou o que está oculto.

Pensou uma cor.

Esculpiu uma flor.

6

Mãos.

De quem são ?

Quem se importa? São só mãos.

Mãos de ação. Criação.

7

Mãos.

Desvãos.  Desvarios.

Com as mãos, teço uma vida.

8

A mão titubeou.

Afagou, dançou. Acolheu, teceu.

Afagou um rosto.

Dançou a noite escura.

Acolheu um ser.

Teceu uma vida.

9

Mãos aladas.                      

Flutuantes.

Almejam o infinito.

Da Série: Poemas Autorais

Fonte da imagem: https://pin.it/46tQIxq1R Pinterest, MessyNessyChic. Foto by Margaret Morris.

*Poemas criados durante estudos de movimento de Eutonia feitos com alunos.

Da mão ao olhar e do olhar à experiência estética

“Onde vai a mão, aí devem seguir os olhos
Onde os olhos vão, lá deve ir a mente
Onde vai a mente, a emoção é criada   
Onde a emoção é criada, a apreciação e o sentimento nascerão. 
Deixe a mão alongar-se tão longe quanto possível
Onde a mão não pode se alongar, deixe ir os olhos
Onde os olhos não podem ir, deixe que a mente avance
Onde a mente penetrar, a emoção é criada 
Onde a verdadeira emoção é criada,   
a apreciação sensorial e estética nascerão.” 

Esse belo poema parece ser uma tradução ou adaptação de um trecho do Natyashastra (ou Nāṭyaśāstra). A autoria desse antigo tratado indiano sobre as artes cênicas foi atribuído ao sábio Bharata Muni. Desconheço o autor da tradução.

Fonte da imagem: https://pin.it/4PPXwcCdj Pinterest

Sobre a Inteligência das Mãos

Na verdade, são poucos os que sabem da existência de um pequeno cérebro em cada um dos dedos das mãos, algures entre falange, falanginha e falangeta. Aquele outro órgao que chamamos cérebro, esse com que viemos ao mundo, esse que transportamos dentro do crânio e que nos transporta a nós mesmos para que o transportemos a ele, nunca conseguiu produzir senão intenções vagas, difusas, sobretudo pouco variadas, acerca do que as mãos e os dedos deverão fazer. Por exemplo, se ao cérebro da cabeça lhe ocorreu a ideia de uma pintura, ou música, ou escultura, ou literatura, ou boneco de barro, o que ele faz é manifestar o desejo e ficar depois à espera, a ver o que acontece. Só porque despachou uma ordem às mãos e aos dedos, crê, ou finge crer, que isso era tudo quanto se necessitava para que o trabalho, após umas quantas operações executadas pelas extremidade dos braços, aparecesse feito. Nunca teve a curiosidade de se perguntar por que razão o resultado final dessa manipulação, sempre complexa até nas suas mais simples  expressões, se assemelha tão pouco ao que havia imaginado antes de dar instrução às mãos. Note-se que, ao nascermos, os dedos ainda não têm cérebros, vão nos formando pouco a pouco com o passar do tempo e o auxílio daquilo que por eles é visto. Por isso o que os dedos sempre souberam fazer de melhor foi precisamente revelar o oculto. O que no cérebro possa ser percebido como conhecimento infuso, mágico ou sobrenatural, seja o que for que signifiquem sobrenatural, mágico e infuso, foram os dedos e seus pequenos cérebros que lhe ensinaram. Para que o cérebro da cabeça soubesse o que era a pedra, foi preciso primeiro que os dedos a tocassem, lhes sentissem a aspereza, o peso e a densidade, foi preciso que se ferissem nela. Só muito tempo depois o cérebro compreendeu que daquele pedaço de rocha se poderia fazer uma coisa  a que se chamaria faca e uma coisa a que se chamaria ídolo. O cérebro da cabeça andou toda vida atrasado em relação às mãos, e mesmo nestes tempos, quando nos parece que passou à frente delas, ainda são os dedos que têm de lhe explicar as investigações do tato, o estremecimento da epiderme ao tocar o barro…”(SARAMAGO, José. A Caverna. Companhia das Letras: São Paulo, 2.000, p. 85-86)

Fonte da imagem: https://pin.it/L9GmktmxB Pinterest

Conversando com a Inteligência do Corpo

O corpo é inteligente?

O corpo é inteligente. O corpo, assim como todo ser vivo tem consciência. O planeta é uma consciência e os minerais são consciências, assim como cada ser vegetal, animal e humano. Provas? Não as tenho; apenas sinto vidas pulsantes a meu redor – seres que vibram em torno de mim, acima de mim, abaixo de mim, dentro de mim. Os átomos e partículas subatômicas pulsam, comunicam-se uns com os outros e obedecem às leis cósmicas que sustentam e organizam seus movimentos internos e suas necessidades de comunicação e de nutrição.

Somos o resultado de um conjunto orquestrado de átomos, moléculas e células e podemos nos comunicar com outros arranjos orquestrados de átomos, moléculas e células sem a necessidade de utilizar a palavra escrita, falada ou pensada. Podemos nos comunicar com as inteligências à nossa volta utilizando nossos sentidos e, a partir deles, nossa intuição. Provas? Não as tenho; apenas sinto. Nasce, então, a comunicação intuitiva com as inúmeras consciências deste mundo e com a inteligência que me habita e dentro da qual habito.

Por que comunicar-se com o corpo?

Sabe-se que uma planta floresce quando cuidada e nutrida, vista e respeitada. Sabe-se também que nosso corpo floresce quando cuidado, nutrido, visto e respeitado. Mas quais são as necessidades de meu corpo? Meu instinto fornece pistas inequívocas, porém todos sabemos que há algo muito além das informações instintivas. Quais as necessidades de meu corpo para que se sinta vibrante, destemido, confiante de si? Posso ir para onde meu corpo me leva seguindo os padrões mentais repetitivos aprendidos em situações conflitantes do passado, ou seguindo os ditames da inteligência inata que nele habita. Basta escolher. Se fizer a escolha pelo desenvolvimento de um corpo inteligente, sei que essa inteligência pode ter toda plasticidade, maleabilidade, criatividade e sabedoria exigidas em cada situação. Sei também que será preciso cultivar em mim a capacidade de me conectar conscientemente com meu mundo interno e de me comunicar intuitivamente com meu corpo.

Como comunicar-se com o corpo?

Átomos, moléculas e células; comunicação celular; especialização. Sabe-se que nosso corpo é uma máquina biológica complexa, formada por átomos, moléculas e células que se comunicam e se especializam. Mas apesar de compreendermos os mecanismos físicos e químicos que governam o corpo, a consciência que coordena e anima esse corpo permanece um mistério; não sabemos exatamente onde reside nem como opera. Essa inteligência é mesmo um mistério: é invisível, não paupável, não se apresenta em três dimensões; é quase indescritível, arredia e aparentemente inalcançável.

No entanto, é possível senti-la; é possível comunicar-se com essa inteligência se assim o desejarmos. Como então despertá-la e desenvolvê-la? Sei que quando entro em contato com ela, comunico-me com um campo e não com um órgão ou um tecido específico. Sei também que esse campo expande-se por todo o corpo: não há uma localização específica e nem mesmo contornos definidos (o campo às vezes ultrapassa os limites físicos do corpo). Sei porque sinto.

O tônus é inato, involuntário, vital; é invisível, quase indescritível, arredio e aparentemente inalcançável. Mas é pela consciência do tônus que me comunico com meu corpo.

A ponte do Arco Íris

Sinto que o contato com a inteligência inata de meu corpo se dá pela sensação e reconhecimento de meu tônus de base. Sim, novamente o tônus1! O tônus é, para mim, o caminho do Graal; o caminho do cálice sagrado que só será encontrado após termos atravessado a ponte do arco-íris que a ele conduz.

O arco-íris é a travessia para o mundo invisível. Existem vários caminhos possíveis e um deles pode ser o caminho já traçado pelo repertório que a Eutonia nos oferece. Essa travessia foca os processos de autoconhecimento, de autoobservação e de autotransformação; abre e alarga as consciências através da expansão da consciência de si e do corpo.

Ensino, pratico e vivencio cotidianamente a Eutonia. Sou uma buscadora de mim mesma e às vezes (nem sempre) alcanço uma qualidade de percepção que me possibilita tocar o caminho do tesouro oculto. Ao tocá-lo me comunico intuitivamente com a inteligência inata de meu corpo e recebo respostas.

Sou grata por ter encontrado este arsenal tão rico de recursos e te convido a vir comigo. Venha se tiver a disposição interna de ir também à busca do tesouro!

Fonte da imagem: https://pin.it/507YA1iaD Pinterest .

  1. Se quiser saber um pouco mais sobre o tônus, leia a sequência das cinco postagens imediatamente anteriores. ↩︎

Deixar Florescer

Contemplo o desabrochar da flor e deixo florescer.

Quando contemplo a flor que se abre, mergulho e me integro a ela: vislumbro superfície, pétalas, profundidade. Vislumbro camadas que se revelam, desvelam. Vislumbro estreiteza e amplitude; o fora, o dentro e o centro.

O tônus quando se redistribui, se espalha e se reequilibra, é como uma flor que desabrocha.

Transito para o espaço interior de meu corpo, focalizo uma vértebra: observo e sinto. Respiro…. Entrego-me ao corpo a partir do ponto focado; entrego-me à observação e sensação da vértebra. E então tudo se modifica. Por dentro. De dentro para fora. Sinto algo abrir-se e expandir-se. Ancorada à terra, elevo-me e flutuo. E da horizontalidade da terra alcanço a verticalidade do manancial de vida que jorra de mim.

A partir dos centros – umbigo e meio do peito -, espalho-me para cima, para baixo, para a frente, para trás, para os lados, para o alto. Por alguns minutos vibro em ressonância com o universo.

Reconheço…: Eu Sou o que Sou.

Imagem: https://pin.it/57fSkHRHy Pinterest

Vídeo: https://youtu.be/f09O1XD3nbQ?si=j-5Ql7WAFeyvFFbj

Da experiência do corpo dançante à consciência do mundo invisível

E sigo…observando, sentindo, decantando, descobrindo, iluminando, integrando….

Observando e Sentindo

Após ter dissolvido as tensões excessivas que teimam em se fixar em determinados lugares (em mim nos ombros e no pescoço), todo o corpo se integra. Tecidos, em suas várias camadas, fluidos corporais e correntes de força conectam-se entre si, como que em uma dança feita entre vários solistas: trocas, rodopios e movimentos espiralados. Os excessos de tensão localizada distribuem-se pelos espaços interiores e o tônus alcança um equilíbrio dinâmico – caminhos internos iluminam-se; correntes de força transmutam-se em elegância; espaços internos alargam-se, movimentos internos ganham em plasticidade.

Sinto que é preciso distribuir os excessos para, então, atingir uma outra qualidade tônica. Essa qualidade me remete a um estado alterado de consciência.

Decantando e Descobrindo

A distribuição dos excessos costuma conduzir-me a uma percepção de descanso nos “vazios” do espaço interior e a um sentimento de segurança. O corpo revela-se, então, como uma sustentação, um refúgio, um colo. Na posição deitada, descanso em meu corpo. E entregue à força da gravidade, conecto-me à terra. Através da fisicalidade de meu corpo, surpreendo-me acolhida no colo de meu corpo, acolhida no colo da terra. Ergo-me: continuo ancorada à terra e conectada ao eixo vertical.

Sinto o acolhimento; percebo os vazios. Se há flutuação tônica, há movimento; se há vazios, há espaços para dançar, dançar por dentro. Ouço a música que toca dentro de mim e danço em sintonia com os ritmos e melodias internos.

Iluminando e Integrando

Sim! Com o tônus equilibrado foco meu centro (pelve, centro da bacia), eixo vertebral e cintura escapular. Tudo no corpo vai entrando no lugar – as articulações se reposicionam, a coluna recupera as curvas anatômicas e fisiológicas e o empilhamento das vértebras entra em alinhamento.

A qualidade do tônus, conquistada no centro, espalha-se e ilumina espaços e caminhos internos. Quando o tônus justo (nem muito alto, nem muito baixo) se propaga por todo o corpo, rompo barreiras físicas, me alargo e me engrandeço, encontro e sinto o espaço radiante – o campo de energia que me envolve.

Toco o manancial de vida que ressoa dentro de mim e mergulho na dança da vida que pulsa em mim e no universo.

Foto: https://pin.it/7bO4mjjgr Pinterest

Quando o gesto se torna uma dança? Quando o gesto se torna poesia?

J’ai tendu des cordes de clocher à clocher; des guirlandes de fenêtre à fenêtre; des chaînes d’or d’étoile à étoile. Et je danse.

Eu estendi cordas de campanário à campanário; guirlandas de janela à janela; correntes de ouro de estrela à estrela. E eu danço.

Illuminations, Arthur Rimbaud

Avançando na trilha da investigação do tônus, retomo o artigo anterior e sigo as suas pegadas.

Afinar o tônus é encontrar o tom, a tonalidade, o ritmo, a melodia, a poesia. Minha tonicidade contagia o outro; o outro me contagia com a sua tonicidade. Eu sou a afinadora, a compositora e a executora de uma obra sinfônica. E de repente me percebo como uma maestrina conduzindo a sinfonia de minha vida; sinto-me vivendo a vida como uma grande obra de arte. Sou arte, sou poesia.

Sinto que o gesto se torna poesia quando permito com que o movimento nasça dos ossos, da musculatura profunda, esquelética.  

Experimento, primeiramente com os olhos fechados, deixar-me expandir por dentro como uma flor ao abrir suas pétalas. Quando a abertura dos espaços no interior do corpo acontece em sua totalidade e integralidade, o contato consciente comigo mesma se estabelece e a tonalidade tônica dos tecidos (ossos, músculos, fáscia, pele, fluidos….) alcança um equilíbrio, equilíbrio dinâmico. E, então, danço por dentro de mim mesma.

É esse o território do gesto e movimento orientados, conscientes e presentes; do movimento expressivo e criativo; do fazer artístico; da vida como obra de arte.

E, então, eu danço.

Imagem: https://pin.it/pEIeJsJdG Pinterest

Contemplo o desabrochar da flor. Deixo florescer.

Fonte do vídeo: Flor de Lótus https://pin.it/5q8rVDOur Pinterest

Equilibrar-se pra quê?

Dando continuidade à matéria anterior, “Quando o tônus entra em equilíbrio. Ou equilibrar-se pra quê?“, questiono-me sobre o grau de importância em atingir uma zona de equilíbrio. Reconheço que o encontro do caminho do meio e de uma zona de equilíbrio – um caminhar pelo mundo afora seguindo por uma rota central, bem como gravitando em torno do meio sem me fixar nos limites – torna-me mais apta a responder aos inúmeros desafios que a vida me traz. Minha experiência de vida, minha experiência como eutonista e educadora somática mostra que a fixação nos pontos extremos pode ser perigosa e ameaçar meu bem-estar: pode me fazer desabar (na fixação em hipotonia) ou enrijecer (na fixação em hipertonia), lançando-me água abaixo, encolhendo minha visão, sugando minha lucidez e domínio de mim.

Sim! Importa equilibrar o tônus. Mas a busca e alcance do caminho do meio, das faixas onde o tônus oscila em equilíbrio, é um desafio.

Mas o que é mesmo o tônus? Qual a diferença entre tônus e força muscular?

O tônus muscular é a tensão muscular involuntária presente no corpo mesmo em estado de repouso. É a permanência da musculatura em um estado de alerta constante – em estado de pré-aquecimento -, pronta para agir. O tônus muscular é um estado basal, com influência direta sobre o alinhamento postural e a fluidez de gestos e movimentos, o estado emocional e a qualidade de vida.

A força muscular, de outro lado, é a capacidade de uma estrutura muscular exercer tensão contra uma superfície ou volume fora ou dentro do corpo.

Tônus muscular e força muscular agem em sinergia. Um tônus muscular adequado facilita o relaxamento, a contração muscular e a geração de força. E certas alterações no tônus podem comprometer a realização de movimentos, a força e função muscular, a relação do corpo com a força da gravidade.

O tônus, contudo, não é apenas muscular; é a expressão de nossa vitalidade, o modo como nos relacionamos com o mundo e conosco mesmos. É como um termômetro de nosso estado físico e emocional. É como o fio condutor que conecta corpo, mente e emoções.

As flutuações do tônus

O equilíbrio vem junto com o alcance de um tônus justo – justo quando em consonância com as flutuações de nossas vidas.

Nossas vidas flutuam e o tônus insiste em flutuar. Essa oscilação é vital para que consigamos dar conta das inúmeras situações que a vida nos coloca – em certos momentos precisamos sustentar tônus altos, como numa competição esportiva por exemplo; em outros, como quando dormimos, é preciso atingir um tônus muito mais baixo para conseguir um sono reparador. E assim, no dia a dia, o tônus vai se revelando e manifestando em suas gradações as mais variadas.

Tônus e sistema nervoso

Atente que a dinâmica tônica está intimamente ligada à atividade do sistema nervoso autônomo – sistema nervoso simpático e parassimpático – o qual é responsável pela regulação das funções involuntárias do corpo, como a frequência cardíaca, a digestão, a respiração e o próprio tônus.

Assim, em uma dança entre os sistema neuronal e muscular, a relação de transmissão e recepção de informações entre eles, pelas vias nervosas, acaba resultando em determinadas gradações tônicas dependendo de cada uma das circunstâncias do dia a dia. Em geral, os ritmos, pulsações e tônicas arranjam-se involuntariamente – chegam como respostas espontâneas às situações com as quais nos deparamos. Essas respostas vêm associadas ao repertório de cada um. Se estiver ansiosa, por exemplo, responderei a uma situação desafiante de um modo; se estiver confiante e segura responderei, a essa mesma situação, de outra forma. É precisamente aqui que a consciência da dinâmica tônica pode ajudar a tornar a vida mais leve, mais criativa, mais sábia. Pois ao expandir a percepção sobre as gradações do tônus abro a possibilidade de interferir em algo que é inato e, muitas vezes, inacessível.

Tônus e Eutonia

Em meu trabalho com a Eutonia – ou no papel de educadora ou de aluna – sinto que quando atinjo um nível de abertura de consciência que toca a integralidade do corpo, o tônus emerge e floresce em sua tonalidade e intensidade. Conecto-me, então, com as várias expressões tônicas: o tônus da fala, do olhar, da pele, do músculo, do gesto, da emoção. Alcanço e tomo consciência do tônus em suas gradações e descubro as vias de acesso à inteligência inata dentro de mim.

Porém, tomar consciência e atingir um tônus justo, equilibrado, flexível, flutuante e não fixado, não é uma tarefa fácil. Também não é fácil sustentar esse nível de foco e atenção. As circunstâncias da vida insistem em nos tirar do foco e do caminho do meio. E dependendo das respostas dadas podemos, de súbito, cair na armadilha da fixação tônica e nos aprisionarmos em nós mesmos.

A eutonia, contem um repertório que fornece os recursos para despertar a consciência tônica, ativar as flutuações do tônus (a variação tônica em tônus alto, médio ou baixo) e alcançar um equilíbrio correspondente a cada situação ou desafio. Não importa que não consigamos sustentar esse nível de atenção durante todo o tempo, mas sim conseguir mobilizá-lo quando necessário.

Encontrando minha harmonia, ritmo e melodia

Não se trata apenas de eliminar as fixações tõnicas mas de encontrar as faixas justas dentro das quais as variações tônicas acontecem. Se abaixar muito o tônus, em uma competição esportiva por exemplo, serei eliminada, mas se elevar muito o tônus a ponto de bloquear alguns movimentos também serei eliminada. Caberia então encontrar, em cada experiência, uma zona de equilíbrio em cada uma das faixas de variação tônica. Sim! É um desafio e tanto! Mas possível de ser superado, a cada momento, utilizando recursos tais como os da respiração, estabelecimento da presença no aqui e agora, contato consciente consigo e com o ambiente externo, expansão dos espaços internos do corpo, etc.

A palavra eutonia significa “bom e justo tônus”. A eutonia busca calibrar o tônus e resgatar as flutuações tônicas. Como eutonista e educadora somática, sinto o tônus como se fosse uma corda de violão. Afinar o tônus é afinar a corda e portanto preparar esse instrumento musical para tocar uma melodia de forma harmoniosa. Ao afinar a corda, afino a mim mesma. E esse afinamento, refinamento depende de uma abertura de consciência para o que se passa em meu interior: o sentir e reconhecer as gradações tônicas a cada instante e saber como alterá-las quando necessário (intervir sobre o que é involuntário em mim!). Depende do contato consciente comigo mesma e com o outro.

Afinar o tônus é encontrar o tom, a tonalidade, o ritmo, a melodia, a poesia. Minha tonicidade contagia o outro; o outro me contagia com a sua tonicidade. Eu sou a afinadora, a compositora e a executora de uma obra sinfônica. E de repente me percebo como uma maestrina conduzindo a sinfonia de minha vida; sinto-me vivendo a vida como uma grande obra de arte. Observo…

Eu sou Arte. Eu sou Poesia.

Referências Bibliográficas

Alexander, Gerda – Eutonia : um caminho para a percepção corporal. São Paulo.  Ed. Martins Fontes.

Gainza, Violeta Hemsy – Conversas com Gerda Alexander, vida e pensamento da criadora da Eutonia– Ed. Summus.

Para uma definição atual da eutonia, a partir da idéia de que é uma prática corporal que visa a harmonização do tônus, gosto do artigo de Bortolo, Maria Thereza – “Eutonia, a busca da flexibilidade tônica” – publicado no site da Associação Brasileira de Eutonia.

Foto: Isadora Duncan https://pin.it/7gMqVnUVM Pinterest