Conversando com a Inteligência do Corpo

O corpo é inteligente?

O corpo é inteligente. O corpo, assim como todo ser vivo tem consciência. O planeta é uma consciência e os minerais são consciências, assim como cada ser vegetal, animal e humano. Provas? Não as tenho; apenas sinto vidas pulsantes a meu redor – seres que vibram em torno de mim, acima de mim, abaixo de mim, dentro de mim. Os átomos e partículas subatômicas pulsam, comunicam-se uns com os outros e obedecem às leis cósmicas que sustentam e organizam seus movimentos internos e suas necessidades de comunicação e de nutrição.

Somos o resultado de um conjunto orquestrado de átomos, moléculas e células e podemos nos comunicar com outros arranjos orquestrados de átomos, moléculas e células sem a necessidade de utilizar a palavra escrita, falada ou pensada. Podemos nos comunicar com as inteligências à nossa volta utilizando nossos sentidos e, a partir deles, nossa intuição. Provas? Não as tenho; apenas sinto. Nasce, então, a comunicação intuitiva com as inúmeras consciências deste mundo e com a inteligência que me habita e dentro da qual habito.

Por que comunicar-se com o corpo?

Sabe-se que uma planta floresce quando cuidada e nutrida, vista e respeitada. Sabe-se também que nosso corpo floresce quando cuidado, nutrido, visto e respeitado. Mas quais são as necessidades de meu corpo? Meu instinto fornece pistas inequívocas, porém todos sabemos que há algo muito além das informações instintivas. Quais as necessidades de meu corpo para que se sinta vibrante, destemido, confiante de si? Posso ir para onde meu corpo me leva seguindo os padrões mentais repetitivos aprendidos em situações conflitantes do passado, ou seguindo os ditames da inteligência inata que nele habita. Basta escolher. Se fizer a escolha pelo desenvolvimento de um corpo inteligente, sei que essa inteligência pode ter toda plasticidade, maleabilidade, criatividade e sabedoria exigidas em cada situação. Sei também que será preciso cultivar em mim a capacidade de me conectar conscientemente com meu mundo interno e de me comunicar intuitivamente com meu corpo.

Como comunicar-se com o corpo?

Átomos, moléculas e células; comunicação celular; especialização. Sabe-se que nosso corpo é uma máquina biológica complexa, formada por átomos, moléculas e células que se comunicam e se especializam. Mas apesar de compreendermos os mecanismos físicos e químicos que governam o corpo, a consciência que coordena e anima esse corpo permanece um mistério; não sabemos exatamente onde reside nem como opera. Essa inteligência é mesmo um mistério: é invisível, não paupável, não se apresenta em três dimensões; é quase indescritível, arredia e aparentemente inalcançável.

No entanto, é possível senti-la; é possível comunicar-se com essa inteligência se assim o desejarmos. Como então despertá-la e desenvolvê-la? Sei que quando entro em contato com ela, comunico-me com um campo e não com um órgão ou um tecido específico. Sei também que esse campo expande-se por todo o corpo: não há uma localização específica e nem mesmo contornos definidos (o campo às vezes ultrapassa os limites físicos do corpo). Sei porque sinto.

O tônus é inato, involuntário, vital; é invisível, quase indescritível, arredio e aparentemente inalcançável. Mas é pela consciência do tônus que me comunico com meu corpo.

A ponte do Arco Íris

Sinto que o contato com a inteligência inata de meu corpo se dá pela sensação e reconhecimento de meu tônus de base. Sim, novamente o tônus1! O tônus é, para mim, o caminho do Graal; o caminho do cálice sagrado que só será encontrado após termos atravessado a ponte do arco-íris que a ele conduz.

O arco-íris é a travessia para o mundo invisível. Existem vários caminhos possíveis e um deles pode ser o caminho já traçado pelo repertório que a Eutonia nos oferece. Essa travessia foca os processos de autoconhecimento, de autoobservação e de autotransformação; abre e alarga as consciências através da expansão da consciência de si e do corpo.

Ensino, pratico e vivencio cotidianamente a Eutonia. Sou uma buscadora de mim mesma e às vezes (nem sempre) alcanço uma qualidade de percepção que me possibilita tocar o caminho do tesouro oculto. Ao tocá-lo me comunico intuitivamente com a inteligência inata de meu corpo e recebo respostas.

Sou grata por ter encontrado este arsenal tão rico de recursos e te convido a vir comigo. Venha se tiver a disposição interna de ir também à busca do tesouro!

Fonte da imagem: https://pin.it/507YA1iaD Pinterest .

Autora: Regina C. Balieiro Devescovi www.reginadevescovi.com.br 11 991541237
https://reginadevescovi.com.br/conversando-com-a-inteligencia-do-corpo/#fad57fb2-26ba-4ae0-8d17-7f2211921cd3-link

  1. Se quiser saber um pouco mais sobre o tônus, leia a sequência das cinco postagens imediatamente anteriores. ↩︎

Deixar Florescer

Contemplo o desabrochar da flor e deixo florescer.

Quando contemplo a flor que se abre, mergulho e me integro a ela: vislumbro superfície, pétalas, profundidade. Vislumbro camadas que se revelam, desvelam. Vislumbro estreiteza e amplitude; o fora, o dentro e o centro.

O tônus quando se redistribui, se espalha e se reequilibra, é como uma flor que desabrocha.

Transito para o espaço interior de meu corpo, focalizo uma vértebra: observo e sinto. Respiro…. Entrego-me ao corpo a partir do ponto focado; entrego-me à observação e sensação da vértebra. E então tudo se modifica. Por dentro. De dentro para fora. Sinto algo abrir-se e expandir-se. Ancorada à terra, elevo-me e flutuo. E da horizontalidade da terra alcanço a verticalidade do manancial de vida que jorra de mim.

A partir dos centros – umbigo e meio do peito -, espalho-me para cima, para baixo, para a frente, para trás, para os lados, para o alto. Por alguns minutos vibro em ressonância com o universo.

Reconheço…: Eu Sou o que Sou.

Imagem: https://pin.it/57fSkHRHy Pinterest

Vídeo: https://youtu.be/f09O1XD3nbQ?si=j-5Ql7WAFeyvFFbj

Da experiência do corpo dançante à consciência do mundo invisível

E sigo…observando, sentindo, decantando, descobrindo, iluminando, integrando….

Observando e Sentindo

Após ter dissolvido as tensões excessivas que teimam em se fixar em determinados lugares (em mim nos ombros e no pescoço), todo o corpo se integra. Tecidos, em suas várias camadas, fluidos corporais e correntes de força conectam-se entre si, como que em uma dança feita entre vários solistas: trocas, rodopios e movimentos espiralados. Os excessos de tensão localizada distribuem-se pelos espaços interiores e o tônus alcança um equilíbrio dinâmico – caminhos internos iluminam-se; correntes de força transmutam-se em elegância; espaços internos alargam-se, movimentos internos ganham em plasticidade.

Sinto que é preciso distribuir os excessos para, então, atingir uma outra qualidade tônica. Essa qualidade me remete a um estado alterado de consciência.

Decantando e Descobrindo

A distribuição dos excessos costuma conduzir-me a uma percepção de descanso nos “vazios” do espaço interior e a um sentimento de segurança. O corpo revela-se, então, como uma sustentação, um refúgio, um colo. Na posição deitada, descanso em meu corpo. E entregue à força da gravidade, conecto-me à terra. Através da fisicalidade de meu corpo, surpreendo-me acolhida no colo de meu corpo, acolhida no colo da terra. Ergo-me: continuo ancorada à terra e conectada ao eixo vertical.

Sinto o acolhimento; percebo os vazios. Se há flutuação tônica, há movimento; se há vazios, há espaços para dançar, dançar por dentro. Ouço a música que toca dentro de mim e danço em sintonia com os ritmos e melodias internos.

Iluminando e Integrando

Sim! Com o tônus equilibrado foco meu centro (pelve, centro da bacia), eixo vertebral e cintura escapular. Tudo no corpo vai entrando no lugar – as articulações se reposicionam, a coluna recupera as curvas anatômicas e fisiológicas e o empilhamento das vértebras entra em alinhamento.

A qualidade do tônus, conquistada no centro, espalha-se e ilumina espaços e caminhos internos. Quando o tônus justo (nem muito alto, nem muito baixo) se propaga por todo o corpo, rompo barreiras físicas, me alargo e me engrandeço, encontro e sinto o espaço radiante – o campo de energia que me envolve.

Toco o manancial de vida que ressoa dentro de mim e mergulho na dança da vida que pulsa em mim e no universo.

Foto: https://pin.it/7bO4mjjgr Pinterest

Quando o gesto se torna uma dança? Quando o gesto se torna poesia?

J’ai tendu des cordes de clocher à clocher; des guirlandes de fenêtre à fenêtre; des chaînes d’or d’étoile à étoile. Et je danse.

Eu estendi cordas de campanário à campanário; guirlandas de janela à janela; correntes de ouro de estrela à estrela. E eu danço.

Illuminations, Arthur Rimbaud

Avançando na trilha da investigação do tônus, retomo o artigo anterior e sigo as suas pegadas.

Afinar o tônus é encontrar o tom, a tonalidade, o ritmo, a melodia, a poesia. Minha tonicidade contagia o outro; o outro me contagia com a sua tonicidade. Eu sou a afinadora, a compositora e a executora de uma obra sinfônica. E de repente me percebo como uma maestrina conduzindo a sinfonia de minha vida; sinto-me vivendo a vida como uma grande obra de arte. Sou arte, sou poesia.

Sinto que o gesto se torna poesia quando permito com que o movimento nasça dos ossos, da musculatura profunda, esquelética.  

Experimento, primeiramente com os olhos fechados, deixar-me expandir por dentro como uma flor ao abrir suas pétalas. Quando a abertura dos espaços no interior do corpo acontece em sua totalidade e integralidade, o contato consciente comigo mesma se estabelece e a tonalidade tônica dos tecidos (ossos, músculos, fáscia, pele, fluidos….) alcança um equilíbrio, equilíbrio dinâmico. E, então, danço por dentro de mim mesma.

É esse o território do gesto e movimento orientados, conscientes e presentes; do movimento expressivo e criativo; do fazer artístico; da vida como obra de arte.

E, então, eu danço.

Imagem: https://pin.it/pEIeJsJdG Pinterest

Contemplo o desabrochar da flor. Deixo florescer.

Fonte do vídeo: Flor de Lótus https://pin.it/5q8rVDOur Pinterest

Equilibrar-se pra quê?

Dando continuidade à matéria anterior, “Quando o tônus entra em equilíbrio. Ou equilibrar-se pra quê?“, questiono-me sobre o grau de importância em atingir uma zona de equilíbrio. Reconheço que o encontro do caminho do meio e de uma zona de equilíbrio – um caminhar pelo mundo afora seguindo por uma rota central, bem como gravitando em torno do meio sem me fixar nos limites – torna-me mais apta a responder aos inúmeros desafios que a vida me traz. Minha experiência de vida, minha experiência como eutonista e educadora somática mostra que a fixação nos pontos extremos pode ser perigosa e ameaçar meu bem-estar: pode me fazer desabar (na fixação em hipotonia) ou enrijecer (na fixação em hipertonia), lançando-me água abaixo, encolhendo minha visão, sugando minha lucidez e domínio de mim.

Sim! Importa equilibrar o tônus. Mas a busca e alcance do caminho do meio, das faixas onde o tônus oscila em equilíbrio, é um desafio.

Mas o que é mesmo o tônus? Qual a diferença entre tônus e força muscular?

O tônus muscular é a tensão muscular involuntária presente no corpo mesmo em estado de repouso. É a permanência da musculatura em um estado de alerta constante – em estado de pré-aquecimento -, pronta para agir. O tônus muscular é um estado basal, com influência direta sobre o alinhamento postural e a fluidez de gestos e movimentos, o estado emocional e a qualidade de vida.

A força muscular, de outro lado, é a capacidade de uma estrutura muscular exercer tensão contra uma superfície ou volume fora ou dentro do corpo.

Tônus muscular e força muscular agem em sinergia. Um tônus muscular adequado facilita o relaxamento, a contração muscular e a geração de força. E certas alterações no tônus podem comprometer a realização de movimentos, a força e função muscular, a relação do corpo com a força da gravidade.

O tônus, contudo, não é apenas muscular; é a expressão de nossa vitalidade, o modo como nos relacionamos com o mundo e conosco mesmos. É como um termômetro de nosso estado físico e emocional. É como o fio condutor que conecta corpo, mente e emoções.

As flutuações do tônus

O equilíbrio vem junto com o alcance de um tônus justo – justo quando em consonância com as flutuações de nossas vidas.

Nossas vidas flutuam e o tônus insiste em flutuar. Essa oscilação é vital para que consigamos dar conta das inúmeras situações que a vida nos coloca – em certos momentos precisamos sustentar tônus altos, como numa competição esportiva por exemplo; em outros, como quando dormimos, é preciso atingir um tônus muito mais baixo para conseguir um sono reparador. E assim, no dia a dia, o tônus vai se revelando e manifestando em suas gradações as mais variadas.

Tônus e sistema nervoso

Atente que a dinâmica tônica está intimamente ligada à atividade do sistema nervoso autônomo – sistema nervoso simpático e parassimpático – o qual é responsável pela regulação das funções involuntárias do corpo, como a frequência cardíaca, a digestão, a respiração e o próprio tônus.

Assim, em uma dança entre os sistema neuronal e muscular, a relação de transmissão e recepção de informações entre eles, pelas vias nervosas, acaba resultando em determinadas gradações tônicas dependendo de cada uma das circunstâncias do dia a dia. Em geral, os ritmos, pulsações e tônicas arranjam-se involuntariamente – chegam como respostas espontâneas às situações com as quais nos deparamos. Essas respostas vêm associadas ao repertório de cada um. Se estiver ansiosa, por exemplo, responderei a uma situação desafiante de um modo; se estiver confiante e segura responderei, a essa mesma situação, de outra forma. É precisamente aqui que a consciência da dinâmica tônica pode ajudar a tornar a vida mais leve, mais criativa, mais sábia. Pois ao expandir a percepção sobre as gradações do tônus abro a possibilidade de interferir em algo que é inato e, muitas vezes, inacessível.

Tônus e Eutonia

Em meu trabalho com a Eutonia – ou no papel de educadora ou de aluna – sinto que quando atinjo um nível de abertura de consciência que toca a integralidade do corpo, o tônus emerge e floresce em sua tonalidade e intensidade. Conecto-me, então, com as várias expressões tônicas: o tônus da fala, do olhar, da pele, do músculo, do gesto, da emoção. Alcanço e tomo consciência do tônus em suas gradações e descubro as vias de acesso à inteligência inata dentro de mim.

Porém, tomar consciência e atingir um tônus justo, equilibrado, flexível, flutuante e não fixado, não é uma tarefa fácil. Também não é fácil sustentar esse nível de foco e atenção. As circunstâncias da vida insistem em nos tirar do foco e do caminho do meio. E dependendo das respostas dadas podemos, de súbito, cair na armadilha da fixação tônica e nos aprisionarmos em nós mesmos.

A eutonia, contem um repertório que fornece os recursos para despertar a consciência tônica, ativar as flutuações do tônus (a variação tônica em tônus alto, médio ou baixo) e alcançar um equilíbrio correspondente a cada situação ou desafio. Não importa que não consigamos sustentar esse nível de atenção durante todo o tempo, mas sim conseguir mobilizá-lo quando necessário.

Encontrando minha harmonia, ritmo e melodia

Não se trata apenas de eliminar as fixações tõnicas mas de encontrar as faixas justas dentro das quais as variações tônicas acontecem. Se abaixar muito o tônus, em uma competição esportiva por exemplo, serei eliminada, mas se elevar muito o tônus a ponto de bloquear alguns movimentos também serei eliminada. Caberia então encontrar, em cada experiência, uma zona de equilíbrio em cada uma das faixas de variação tônica. Sim! É um desafio e tanto! Mas possível de ser superado, a cada momento, utilizando recursos tais como os da respiração, estabelecimento da presença no aqui e agora, contato consciente consigo e com o ambiente externo, expansão dos espaços internos do corpo, etc.

A palavra eutonia significa “bom e justo tônus”. A eutonia busca calibrar o tônus e resgatar as flutuações tônicas. Como eutonista e educadora somática, sinto o tônus como se fosse uma corda de violão. Afinar o tônus é afinar a corda e portanto preparar esse instrumento musical para tocar uma melodia de forma harmoniosa. Ao afinar a corda, afino a mim mesma. E esse afinamento, refinamento depende de uma abertura de consciência para o que se passa em meu interior: o sentir e reconhecer as gradações tônicas a cada instante e saber como alterá-las quando necessário (intervir sobre o que é involuntário em mim!). Depende do contato consciente comigo mesma e com o outro.

Afinar o tônus é encontrar o tom, a tonalidade, o ritmo, a melodia, a poesia. Minha tonicidade contagia o outro; o outro me contagia com a sua tonicidade. Eu sou a afinadora, a compositora e a executora de uma obra sinfônica. E de repente me percebo como uma maestrina conduzindo a sinfonia de minha vida; sinto-me vivendo a vida como uma grande obra de arte. Observo…

Eu sou Arte. Eu sou Poesia.

Referências Bibliográficas

Alexander, Gerda – Eutonia : um caminho para a percepção corporal. São Paulo.  Ed. Martins Fontes.

Gainza, Violeta Hemsy – Conversas com Gerda Alexander, vida e pensamento da criadora da Eutonia– Ed. Summus.

Para uma definição atual da eutonia, a partir da idéia de que é uma prática corporal que visa a harmonização do tônus, gosto do artigo de Bortolo, Maria Thereza – “Eutonia, a busca da flexibilidade tônica” – publicado no site da Associação Brasileira de Eutonia.

Foto: Isadora Duncan https://pin.it/7gMqVnUVM Pinterest

Quando o tônus encontra um equilíbrio. Ou…Equilibrar-se pra quê?

A pratica eutônica

Na Eutonia, costuma-se, em geral, iniciar uma aula na posição deitada e em imobilidade. Observa-se que é nos estados de maior apaziguamento físico e mental que se consegue melhor despertar e vivenciar a experiência da vida que flui em nosso corpo. Desse estado silencioso, meditativo acaba aflorando, cedo ou tarde, a faculdade de sentir e observar; de perceber, investigar e tomar consciência das demandas e necessidades do próprio corpo.

À medida em que se consiga estabelecer a presença em si – pensamentos, sentimentos e sensações; memórias, imagens e devaneios –, o tônus do momento pode emergir em nossa consciência de vigília e, muitas vezes buscar um equilíbrio a partir de uma auto regulação (nos espreguiçamentos, suspiros, bocejos…; nos movimentos involuntários do corpo).  Ou simplesmente se apresentar como um desconforto ou distúrbio a ser cuidado dentro do trabalho eutônico. 

O tônus muscular

Tônus muscular é o estado de tensão elástica (pequena contração) que apresenta o músculo em repouso e que lhe permite iniciar a contração rapidamente após o impulso dos centros nervosos. O tônus mantém o músculo preparado para a ação e é causado pela estimulação nervosa podendo estar em hiper (a mais), hipo (a menos) ou atonia (sem tônus). Existe, assim, um tônus de base, onde a atividade muscular é constante mesmo quando o corpo permanece na imobilidade, mesmo quando dormimos (no sono REM, por exemplo, há um máximo de relaxamento muscular e apenas os olhos e a musculatura da respiração permanecem ativos).

O tônus é mais

Por estar ligado à ativação neuronal, o tônus está, evidentemente, também associado às nossas dinâmicas mentais, emocionais e psíquicas.  Portanto, quando falo em tônus, aqui, não me remeto apenas ao tônus físico, mas também às outras camadas de nós. Na ansiedade, por exemplo, o tônus fica elevado tornando-se difícil ficar na imobilidade (as insônias acontecem quando estamos ansiosos…). De outro lado, nos estados depressivos o tônus fica muito baixo o que dificulta a saída de uma posição de imobilidade, desabamento do corpo.

Assim, quando em uma prática de Eutonia, vivenciamos a imobilidade do corpo (em um estado de descanso alerta, ativo) e intencionamos  a entrega do corpo deitado ao chão, algo bastante interessante e às vezes surpreendente pode vir à tona. De repente, podemos passar a reconhecer uma tensão ou tônus de base que, com o desenrolar das práticas, pode vir acompanhada de uma percepção cada vez mais refinada e sensível  de suas flutuações ou fixações –  flutuações  ou fixações  associadas tanto aos estados físicos, emocionais e mentais quanto à intensidade tônica singular de cada uma de nossas ações cotidianas (pois algumas ações, sem dúvida, exigem tônus mais altos do que outras).

Apoderar-se de si

E de repente me percebo apoderando-me cada vez mais de meu corpo. Adquiro uma consciência maior do tônus em suas mais variadas gradações e um domínio maior das flutuações tônicas. Tomo consciência das fixações tônicas e permito mais e mais a flutuação das tensões-emoções-pulsões de acordo com a singularidade de cada ação realizada, de cada situação.

Equilíbrio?

E o equilíbrio? Diria que é a capacidade de deixar flutuar o tônus. É a aprendizagem e o caminhar na corda bamba. Quando apoderados e apoderadas de nossos próprios corpos – potência em ação – é assim que caminhamos pela vida. Somos equilibristas. Lembro de um trecho de Um sopro de vida de Clarice Lispector em que ela se refere a um “desequilibrio equilibrado”. “Às vezes acontece um desequilíbrio equilibrado como numa gangorra: uma hora está encima, uma hora está em baixo… Sim! O desequilíbrio da gangorra é precisamente o seu equilibrio.

Mas…Equilibrar-se pra quê, mesmo?

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A Beleza Essencial

“Se a beleza é inerente e essencial à alma, então a beleza aparece sempre que a alma aparece. Essa revelação da essência da alma, o verdadeiro mostrar-se de Afrodite na psique, seu sorriso, é chamada de beleza na linguagem dos mortais. À medida em que exibem sua natureza inata, todas as coisas apresentam a natureza áurea de Afrodite; elas brilham e dessa forma são estéticas.
A beleza não é um atributo como uma película envolvendo uma virtude, meramente o aspecto estético da aparência. É a própria aparência. Se não houvesse beleza, junto com a bondade e a verdade e o uno, nunca poderíamos sentí-los, conhecê-los. A beleza é uma necessidade…; é o modo como os Deuses tocam nossos sentidos, alcançam o coração e nos atraem para a vida.”
“O pensamento do coração e a alma do mundo”, de James Hillman (pgs. 46,47).
Capa: Art by Pinterest

O que é a Abordagem Integrativa Transpessoal

A psicoterapia transpessoal trata do estudo da consciência em suas múltiplas dimensões: resgata a dimensão energética e considera os vários níveis da realidade na experiência humana. Recolhe o conflito do mundo cotidiano e eleva-o a outros níveis da realidade. Uma vez recolhido e trabalhado, esse conflito é devolvido, transmutado, para a nossa atualidade terrena e espaço-temporal.

É uma abordagem terapêutica que enfatiza a busca pelo autoconhecimento e bem-estar emocional. Concentra-se no desenvolvimento pessoal e na conexão com a essência do ser humano ao explorar as dimensões espirituais e transpessoais da vida.

É uma abordagem holística que considera o ser humano como um todo, incluindo as dimensões físicas, emocionais, mentais e espirituais. Concentra-se na compreensão da pessoa como um ser em constante evolução e em busca de significado e propósito na vida. A psicoterapia transpessoal acredita que as pessoas têm dentro de si as respostas para suas próprias questões e que o papel do terapeuta é ajudá-las a encontrar essas respostas.

A Abordagem Integrativa Transpessoal foi criada e sistematizada por Vera Saldanha, psicóloga brasileira e uma das mais importantes referências atuais no campo da Psicologia Transpessoal. A sistematização de seus principais conceitos foi feita em sua tese de doutorado (Saldanha, 2006), após ter trilhado um caminho de extensa e profunda aplicação dos postulados da Psicologia Transpessoal nas áreas da saúde, educação e pesquisa.

A autora vem percorrendo o caminho da orientação transpessoal desde 1978, quando participou do IV Congresso de Psicologia Transpessoal. Aí, teve a oportunidade de conhecer Pierre Weil e Stanislav Grof (influentes pensadores, pesquisadores, educadores e terapeutas no campo da psicologia humanista e transpessoal), tendo estabelecido, a partir de então, uma profunda amizade e uma parceria intelectual bastante profícua com Pierre Weil. Hoje, a frente da Associação Luso-Brasileira de Transpessoal, ela coordena o Curso de Pós ­Graduação Lato Sensu em Psicologia Transpessoal, pesquisando e ensinando a Abordagem Integrativa, com base na didática transpessoal por ela sistematizada.

As seções são organizadas em torno da compreensão de que o desenvolvimento pessoal ocorre com base nas experiências (ou eixo experiencial) e desenrola-se em torno de entendimentos e vivências cada vez mais integrativas do ser (ou eixo vertical). Os recursos utilizados são: intervenção verbal, imaginação ativa, reorganização simbólica, dinâmica interativa e recursos adjuntos (práticas de meditação, de relaxamento e de consciência corporal).

Enfim, a terapia de abordagem transpessoal é uma abordagem terapêutica holística que enfatiza a busca pelo autoconhecimento, espiritualidade e bem-estar emocional. Auxilia a pessoa a desenvolver uma maior compreensão de si mesma e do mundo a seu redor, permitindo com que se sinta mais inteira, auto confiante e conectada à vida.

Algumas Reflexões e Insights no “Reflexões”

Como terapeuta transpessoal, eutonista e educadora do movimento, passei anos me trabalhando e trabalhando com pessoas que desejam melhorar a qualidade de suas vidas – seja através da consciência corporal, gestual e motora; seja através do diálogo e da meditação. Algo que aprendi e continuo aprendendo é que as auto-descobertas sobre a integração corpo-mente são fundamentais para a saúde e o bem-estar.

O grau de consciência de que somos uma totalidade composta de várias camadas – desde as mais sutis até as mais densas – reflete-se na relação de nossos pensamentos e sentimentos com as sensações, bem como no modo como lidamos com o auto cuidado e com a percepção e organização do corpo no espaço. O grau e tipo de interação entre as várias camadas de nós mesmos desempenham um papel crucial na forma como nos sentimos, pensamos e nos comportamos. Sustentar a consciência dessa dinâmica em nossas vidas cotidianas resulta em corpos mais harmônicos, equilibrados e auto-regulados e, consequentemente, no desenvolvimento da capacidade de expressar nossos pensamentos, sentimentos e necessidades com mais autenticidade e espontaneidade.

Em minha experiência, percebo que os desdobramentos do contato consciente com o corpo são: mais saude e bem-estar, e maior criatividade e perspicácia para lidar com os desafios que a vida nos apresenta.

Após uma sessão, após uma vivencia, sinto que o trabalho permanece ao longo do dia: manifesta-se numa fala mais sensível, num encontro mais aberto e verdadeiro, num olhar mais amoroso diante de uma situação, num modo mais atento e cuidadoso de como vou criando a minha realidade. O trabalho revela-se mesmo que não seja chamado: resvala pelos poros e insinua-se nos detalhes. Simplesmente acontece.

E então, vou me percebendo deixar fluir na vida, sem resistência, caminhando mais desperta rumo ao desconhecido.